Entre possibilidades e necessidades…

Atualizado: 21 de Out de 2018


O que fazer quando nossos filhos não participam das brincadeiras como as outras crianças? Essa foi e pergunta- encomenda para a Mediação Coletiva deste mês. Grande desafio pensar a partir dessa pergunta disparadora! Algumas coisas para começar: porque uma criança NÃO brinca COMO as outras? O que seria brincar COMO as outras? Todas as crianças brincam da mesma forma?

Começo a pensar o suposto impedimento: quando e porque elas NÃO brincam? Poderia ser porque não conseguem, ou porque as outras crianças não deixam, ou porque se tornam invisíveis, ou porque alguém (muitas vezes os adultos) supõe que não vão conseguir. Se pensarmos que não conseguem temos um problema, pois é preciso questionar esse não conseguir, que tipo de “competência” se quer de uma criança em uma brincadeira. Num mundo onde competência é critério de sucesso ou de fracasso, pode-se supor que, desde muito cedo, as crianças já são introduzidas na lógica do “fazer bem” para ser feliz - como se fazer bem fosse algo que só dependesse delas.

Quando partimos para o caminho de “as crianças não deixam”, corremos o risco de supor uma “maldade” deliberada, o que é bastante incomum principalmente quando falamos de crianças pequenas. Um impedimento assim seria mais frequente em grupos com idades mais avançadas, principalmente no mundo adulto: nessa fase já deu tempo dos preconceitos e dos estereótipos criarem raízes!

Aí vem a questão do brincar “COMO” as outras crianças. É comum dizer, no anseio de mostrar ao mundo que as crianças com síndrome de Down ou com qualquer outro tipo de deficiência também devem pertencer – elas podem brincar como qualquer outra criança!!! De fato elas podem. Mas o que significa esse COMO? É um como que nos leva a fazer com que brinquem igualzinho, das mesmas brincadeiras, com o mesmo desempenho, na mesma velocidade? O como pode nos colocar na armadilha de adaptar, corrigir, normalizar para poder pertencer e esse tipo de pertença é cruel.

Ou é um como que nos leva a pensar que elas têm o direito ao brincar tal como as outras crianças? Porque aí o caminho é outro: será necessário repensar a brincadeira, os combinados, a competição, os brinquedos, o tempo, os espaços, a mediação dos adultos. Está posta a dificuldade. De pronto, já tem muita coisa a ser modificada! Incluir exige que a gente desacomode, invista tempo, dinheiro, que se transforme. Pertencer é uma demanda humana, mas o desafio é pertencer sem apagar as diferenças!

Ao ler o texto da Mariana Rosa (Indulto às Mães – Dário da Mãe da Alice), fiz o exercício de entrar naquela cena como expectadora e pensar o que ela me mobiliza. Penso logo no contexto cheio de barreiras (das piores barreiras, as atitudinais) que impediram Alice de festejar aquele momento junto das outras crianças – afinal, o que pode uma criança que não fala ou não anda como as outras? Mas me chamou muita atenção a narrativa do sofrimento da mãe e da menina: ambas, de formas diferentes, viveram a dor da exclusão. E olhar para o sofrimento pode nos deixar paralisados e gerar uma sensação de impotência. Doeu em mim. Doeu em vocês, pais. Dói nos filhos, porque eles sentem – com maior ou menor grau de elaboração – o descrédito que o mundo tantas vezes credita a eles.

E para não permanecermos paralisados diante dessas situações sofridas, podemos refletir sob dois aspectos (pensei a princípio em dois, mas podem haver outros!): o caminho do que é possível e o caminho do que é necessário!

É possível (aliás nesse caso é provável) que soframos inúmeras vezes ao lado dos filhos, e que a única coisa a fazer (valiosíssima, aliás) seja oferecer acolhimento e motivação para a resistência diária! Afinal, como diz a Mariana Rosa (Dário da Mãe da Alice), somos todos incompletos (todos mesmo) e vamos sendo, sendo, sendo ao longo da vida e por conta das experiências para as quais ela nos convoca!

A mãe da Alice empresta seu corpo para sua filha, oferece seus braços e suas pernas e assim possibilita sustentação para que a menina possa ver o mundo sob diferentes perspectivas, que não apenas a da cadeira de rodas. Vocês podem “emprestar” aos filhos de vocês a reflexão, a possibilidade de elaborar e dar sentido ao mundo. Ou seja, os filhos com Síndrome de Down vão precisar de ajuda para organizar pensamentos e para analisar as coisas à sua volta. Agindo assim, vocês colaboram para que eles se tornem cidadãos atuantes, éticos, conscientes de seus deveres e de seus direitos, participantes da vida da comunidade!

É possível pensar (aliás, nos dá certo conforto), que a maior parte das pessoas colabora com a exclusão não por maldade, mas por pura ignorância. Simplesmente, na procura por explicações que lhes são familiares, acabam naturalizando aquilo que nada tem de natural: o fato de que nenhum tipo de diferença humana (raça, gênero, sexualidade, deficiência, classe social) é requisito para tornar alguém mais ou menos gente, mais ou menos digno.

E sobre os necessários...

É necessário não perder de vista que a deficiência não é uma tragédia em si e que o sofrimento vivido todos os dias pelos filhos não é individualizado – é um sofrimento coletivo que precisa ser vivido junto, nos coletivos! Nesses espaços nos reconhecemos e nos tornamos mais fortes para resistir e enfrentar as desigualdades.

É necessário pensar que ao mesmo tempo em que na luta diária nos dedicamos a viabilizar a autonomia e independência dos filhos, é fundamental trabalhar pela transformação do mundo. Caso contrário, se a luta ficar restrita ao universo das particularidades (do que é importante para a minha vida e do meu filho), podemos ter acesso a todas as terapias, todos os especialistas e aos melhores professores: estaremos trabalhando por PRIVILÉGIOS e não por DIREITOS.

E acima de tudo, é fundamental que eles – os filhos - digam, num futuro bem próximo, como querem fazer essas lutas – afinal como pessoas momentaneamente não deficientes, a única coisa que podemos oferecer, no limite, é nossa empatia.

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